Era calor. Era surpresa. Sentia-me até desconfiada por um de meus desejos mais ardentes estarem – Quase como resultado de um pedido à Fada Madrinha, quase como efeito de LSD – sendo realizados, exatamente no tempo em que eu estava contemplando a bandeira branca. A um passo de levantá-la.
Tamanha era descrença que naqueles dias tornei-me o oposto de Urano, havia abraçado todas as causas de setembro em mercúrio. Nem uma centelha daquela felicidade absurda me pertencia. Eu sabia que a estava roubando de alguém. Mas em minha mente cheia de armadilhas, trapaças e desculpas, de alguma forma (e não me pergunte como) eu ainda via uma forma de escapar da depressão pós-êxtase que me esperava gozando-se de gargalhadas maléficas e estridentes e urrando ao vento norte a minha fé em finais felizes – para usurpadores -. Conseguia girar em volta do mundo 10 vezes por segundo premeditando o que aconteceria no momento em que ele deixasse aquela porta. No momento em que eu estivesse sozinha. No momento em que os efeitos não-orgânicos deixassem de inebriar meu corpo, mente e alma.
Sou explosão, sou ação, sou improviso. Nunca gostei de cálculos, de contas, de resultados inflexíveis. Diante de tal situação meu instinto de sobrevivência emocional outra vez tentava em vão controlar as rédeas de minhas emoções. Quando a palpitação acelerada dentro de minha caixa torácica esmagava meu ego, eu sabia: a calmaria viera antes da tempestade. Minhas mãos tremidas e meus olhos inquietos sabiam que o céu se formando em escuridão acima da minha cabeça não era mera coincidência, era presságio. A manhã surgiu e com ela, lágrimas de antecipação – de uma certeza absolutamente concreta -, fadiga, martírio e algo que deveria se assemelhar com medo. Caiu a chuva. Forte, dolorosa. Lavei minhas mãos, mas não consegui retirar o peso da minha e só minha responsabilidade sobre o marasmo em que iria me encontrar a poucas horas dali.
Assim como no livro que foi escrito em minha memória durante as duas intermináveis 24h daquele feriado esquizofrênico – que deveria ter sido somente o habitual clichê do nosso sexo, drogas e rock ‘n’ roll – a tempestade finalmente deu vazão às minhas expectativas. Lá fora os anjos choravam, estavam desesperados. Aqui dentro, os demônios sorriam, estavam satisfeitos. Era frio novamente.
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intensidade. uma fogueira. um temporal.
ResponderExcluirBelo e intenso texto! Um linguagem poética! Parabéns!
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